A CDI promoveu uma rica conversa na última quarta-feira, 25, em uma live abordando o que está além do ESG, três letrinhas que têm ganhado destaque nas empresas e para as marcas.  Afinal, a adoção das melhores práticas ambientais, sociais e de governança, é um caminho sem volta – tanto pela cobrança da sociedade, como também para os líderes empresariais e para todas as corporações, entidades e instituições.
Fabiana Coelho, fundadora da Dialogus, empresa do grupo CDI, e coach certificada pela Gallup, mediou o debate que recebeu:  Hugo Bethlem, presidente do Conselho do Instituto Capitalismo Consciente Brasil e Chief Purpose Officer da Bravo GRC; Cássio Clemente, fundador e CEO da consultoria Equi Social, especializada no planejamento, desenvolvimento, implementação e gestão de projetos ESG no Brasil e Carlos Alberto Silva, ecólogo e mestre em geociências com 25 anos de experiência no desenvolvimento e implementação de programas de gestão de sustentabilidade, com alinhamento da estratégia de negócios de organizações dos setores privado e público.

O encontro marcou o anúncio da rede inédita no setor de comunicação empresarial entre a CDI e grandes especialistas no assunto para apoiar companhias que adotam ou que queiram estruturar as melhores práticas ambientais, sociais e de governança empresas neste novo mundo.  Na CDI, há uma equipe focada em conduzir a comunicação conectada com ESG com esses especialistas.

A reflexão sobre ESG passa pelo entendimento de Capitalismo Consciente, como abordou Hugo Bethlem. A partir da conceituação histórica do capitalismo desde Adam Smith, com sua obra “A Riqueza das Nações”, Hugo destaca os dois lados percebidos do capitalismo: uma das maiores invenções humanas e enorme fonte de prosperidade e uma ameaça à destruição do planeta e desestabilização da sociedade. E explica a diferença do capitalismo consciente: “Ele nasce exatamente para pegar o que tem de melhor do positivo e tirar o que tem de pior do capitalismo. Então, nós existimos para ajudar a transformar o jeito de fazer investimentos e negócios no Brasil, multiplicando pilares que levam a uma gestão mais humana, mais ética e mais sustentável, para diminuir todas as desigualdades que vemos no mundo corporativo, de gênero, raça, de orientação sexual, de PCDs. Aquele capitalismo só voltado para os interesses do acionista, onde a única responsabilidade social da empresa é maximizar o retorno e o lucro desse acionista e muitas vezes às custas da miséria e dor de qualquer outro stakeholder, não pode continuar funcionando”. E complementa: “Para que o negócio seja consciente, as empresas precisam ter quatro pilares fundamentais: um propósito maior; tratar todos os outros stakeholders de forma equânime; criar cultura e valores que garantam a sua perpetuidade e principalmente, ter um líder consciente e que cuide das pessoas, para que juntos cuidemos do nosso planeta”.

Maior peso do pilar Governança – A governança mostrou seu papel de destaque e para tal, segundo os especialistas, o ESG deveria ser GSE, porque se não começar pela Governança, não será possível ter ações efetivas no social internas e externas e não haverá cuidado do meio ambiente. A Governança é o driver da inovação e o único caminho de uma empresa ser ESG de verdade, de mudar um jeito de fazer uma economia linear por uma economia circular.

Hugo reforça que 61,5% de todas as 150 empresas mais bem ranqueadas em consciência, em ESG e reputação de marca, são pequenas e médias empresas. Elas deveriam ser exemplos de mudança que se pode e que se deve fazer. E elas não sabem como começar a Governança, para entender que isso é fundamental e que as ações, verdadeiramente no social, sejam tomadas.

Governança tem a ver com tomada de consciência. Hugo ressalta que não é a falta de ESG no planeta e sim a falta de consciência: “Nós acreditamos que além dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da agenda da ONU 2030, deveríamos ter a ODS 0, que é elevar a consciência das pessoas. É fundamental que a gente acredite que os negócios são ao mesmo tempo criadores dos problemas de sustentabilidade e sociais, e que também somos os provedores das soluções mais sustentáveis e melhor democraticamente sociais”.

Social vai além do caráter assistencial –  Classio Clemente ressaltou que a visão do Social é como se cria uma situação harmônica para que as pessoas exerçam o seu potencial dentro e fora das empresas: “O ESG é um processo de transformação e a empresa vai ter que rever suas prerrogativas, suas prioridades e seu olhar no ambiente que está inserida. Nesse ecossistema, o ambiente social precisa ter um novo olhar”.

Evolução do meio ambiente – Carlos Alberto contextualizou a linha do tempo desde o primeiro conceito,  – Triple Bottom Line –  de John Elkington: pessoas, planeta e rentabilidade (people, planet and profit), passando pelo Balanço Social de Base, na década de 1990 criado pelo sociólogo Betinho. O Índice de Sustentabilidade Empresarial lançado em 1999 na Bolsa de Nova York foi outro marco, seguido pela criação da Global Report Initiative, organização sem fins lucrativos, onde vários representantes da sociedade elaboram um conceito para a divulgação do relato de sustentabilidade, o que vem em constante evolução desde então.

“ESG está em constante evolução de acordo com o que acontece no mundo. A nossa relação com os recursos naturais precisa ser tratada com responsabilidade pelas organizações e pela sociedade – principalmente as organizações, que têm um papel importante na tomada de consciência”, diz.

Carlos Alberto destacou o pensamento integrado e o entendimento do negócio nos diferentes capitais. “O primeiro passo é conhecer as organizações – o que é utilizado para gerar o negócio? Quais os capitais naturais? O capital humano, intelectual? Das saídas, podem ter um impacto negativo ou positivo desses capitais.   Quando eu entendo os impactos negativos e positivos em função do meu negócio, daí é onde eu começo a implementar a estratégia de sustentabilidade. O que temos visto na prática é que nem todas as organizações fizeram esse exercício. O pensamento integrado, que é uma evolução importante dentro do ESG é fundamental. Eu não posso olhar a questão ambiental dissociada da questão tecnológica e de relacionamento e é preciso ter um maestro que organize tudo isso, para que as práticas de ESG estejam internalizadas dentro dos processos”.

O papel dos líderes – As empresas são reconhecidas por seus consumidores como tendo caráter, atitude e valores. Se o consumidor começa a não reconhecer esses valores, ele para de consumir. Esse é o impacto que vamos viver em termos de marca, de reconhecimento de produto e de valores. E mudanças devem envolver todos com engajamento prático da alta liderança.   Para todos, a implementação de ESG deve ir além da obrigatoriedade ou da pressão de setores financeiros. A prática das três frentes só será vivenciada se as pessoas e empresas avançarem efetivamente, indo além de práticas como ter um Código de Ética ou Processo de Compliance. Se seus líderes exemplificarem que a mudança está nas atitudes e não somente no cumprimento de regras e leis.

Todos ressaltaram o papel da liderança na mudança. Se os líderes querem transformar suas empresas, precisam transformar a si mesmos.  Hugo ressalta que na gestão de liderança, “é gritante quando a primeira coisa que se faz é cortar salário ou demitir. Se a empresa corta e prorroga o meio do pagamento, está dizendo: eu vou salvar o meu bolso às custas do seu bolso. Só conseguimos mudar isso quando os líderes entenderem que esse modelo é insustentável.  Para Hugo, é hora de redefinir o sistema econômico pois ele recompensa a maximização da riqueza sobre o bem-estar e prioriza o individualismo sobre a interdependência: “Devemos construir um futuro em que todas as pessoas sejam capazes de trabalhar com dignidade e cuidar delas mesmas e de seus entes queridos, onde nosso planeta seja saudável e as economias para o progridam; para isso, precisamos reimaginar este modelo. Mas, de novo, cabe aos líderes. E dá um recado aos que não são líderes: “Quem não está pronto para liderar a si mesmo, é incapaz de liderar as transformações que o mundo pede.”

O caminho da mudança para ESG – Em uma das perguntas da audiência, foi questionado o caminho para avaliar a mudança para ESG. Cassio explica que “primeiro, precisa ter um alinhamento de propósito, missão e valores, e uma triagem de qual área você vai atuar. Depois desse alinhamento, precisa avaliar as transformações, ou seja, o quanto você está trazendo os seus fornecedores para melhorar o processo de produção? O quanto você está entendendo as necessidades de seus fornecedores para que eles melhorem a performance? O quanto o entorno entende você como uma empresa bem-vinda naquela comunidade? Não existe uma régua para a avaliação, e sim a pergunta constante: O quanto eu estou gerando valor para isso que eu estou fazendo, alinhado para os meus propósitos?”

Carlos complementa: “Depende também do grau de maturidade que cada organização tem. Primeiro, é preciso olhar para dentro e entender os principais impactos positivos e negativos, o que é primordial, e começar a atuar sobre os impactos negativos.  Cada elo da cadeia de valor dentro da sociedade precisa assumir a sua responsabilidade de fato.

A conclusão da conversa deixa uma reflexão otimista e crítica. É preciso que as organizações gerem lucro para não prestar um desserviço à sociedade e no momento, muitas organizações que têm resultado positivo estão olhando apenas pela vertente de oportunidade. A partir do momento que olharem para a cadeia de valor, surgirão oportunidades de negócios e mudanças em todo o ecossistema. E, antes de tudo, deve haver clareza sobre o propósito que move a organização para criar um círculo virtuoso que irá contribuir para uma melhor sociedade e um mundo melhor e mais justo.