As medidas de distanciamento social, indispensáveis para reduzir o ritmo de contágio da população e mitigar o impacto do novo coronavírus sobre os sistemas de saúde, já produzem seu efeito colateral indesejado: as paralisações de segmentos da indústria, do comércio, dos serviços e do agronegócio impactam as previsões de crescimento da economia brasileira em 2020 – o Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, prevê uma queda do Produto Interno Bruto (PIB) nacional de até 5,3% neste ano.

“Quando isso tudo terminar, ainda teremos restrições e cautela de empresas e pessoas. Logo, a recuperação será lenta”, prevê Marcela Rocha, economista-chefe da Claritas Investimentos. Ela destaca, no entanto, como positivas as ações do governo de incentivo à economia, como “a redução da taxa de juros, as linhas de crédito e financiamento para liquidez, a proteção ao emprego e renda à população mais vulnerável”. A economista alerta, porém, que essas medidas não devem levar a um cenário de irresponsabilidade fiscal no pós-crise, sob pena de colocar em dúvida a recuperação.

Já Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter, acredita que uma retomada rápida da atividade econômica após o fim das quarentenas é possível, mas vai depender da duração do surto. “Com a ajuda do governo nas ordens fiscal e monetária, com a redução dos juros e muitos estímulos ao crédito, será possível reagir. A questão é saber até onde vai a pandemia. De acordo com as curvas em outros países, nós esperamos a retomada do convívio e das atividades de trabalho de forma gradual para os próximos meses. Mas pode haver o risco de uma segunda onda de contágio, com impacto maior no PIB e um quadro mais radical”, adverte.

Ambas as economistas destacam, porém, que o foco das empresas para superação da fase mais intensa da turbulência deve ser o controle do caixa e da liquidez. Confira abaixo a íntegra da conversa com as duas especialistas:

 

Quais são os cenários macroeconômicos mais prováveis numa recuperação pós-crise do Covid-19?

Marcela Rocha, economista-chefe da Claritas Investimentos

 Marcela Rocha – Ainda estamos tentando entender até onde vai essa crise, que é sem precedentes. Há grande incerteza sobre o tamanho da contração do PIB, pois não se trata de um problema econômico ou setorial. As autoridades precisam atuar em diversas frentes: isolamento social, testes para identificar os doentes e investimentos para evitar a disseminação da doença. Há um lado positivo de mitigação de impactos da paralisação na economia, com muitas medidas do governo federal para estimular a sequência das atividades de indústrias, comércios e serviços, como a redução da taxa de juros, as linhas de crédito e financiamento para liquidez, a proteção ao emprego e para dar renda à população mais vulnerável, inclusive via adaptação das regras trabalhistas. Mas hoje há a restrição da mobilidade para a contenção de infectados. Quando isso tudo terminar, ainda teremos restrições e cautela de empresas e pessoas. Logo, a recuperação será lenta. As medidas ficais não trazem clareza de uma recuperação rápida. Todo esse cenário deve levar a uma recessão forte e profunda, com grandes consequências. Será desafiador. A queda do PIB e o aumento da taxa de desemprego serão inevitáveis. Haverá legados ao Brasil para a economia. Será preciso responsabilidade e austeridade de todas as autoridades. Não pode haver oportunismo e irresponsabilidade fiscal na liberação de recursos financeiros, pois podemos ter desconfiança de investidores e a recuperação será colocada em xeque.

Rafaela Vitória – A crise chegou de repente e de maneira forte. Há uma mudança brusca no processo de recuperação econômica, com uma queda da atividade especialmente desde o final de março. O resultado do PIB de março vai impactar fortemente o 1º trimestre, que deve terminar negativo entre 1 e 2%. E vai ser pior no 2º trimestre. No pós-crise, nós esperamos que os padrões de consumo e as atividades retornem de forma acelerada. Entendemos que, apesar da crise, há elementos para uma recuperação rápida, embora alguns setores sofram mais. Com a ajuda do governo nas ordens fiscal e monetária, com a redução dos juros e muitos estímulos ao crédito, será possível reagir. A questão é saber até onde vai a pandemia. De acordo com as curvas em outros países, nós esperamos a retomada do convívio e das atividades de trabalho de forma gradual para os próximos meses. Mas pode haver segunda onda, com impacto maior no PIB e um quadro mais radical.

 

O que as empresas devem fazer para se recuperar e voltar a crescer após a fase mais aguda da pandemia?

Marcela Rocha – Com as empresas sofrendo com as incertezas, por conta do tamanho da retração econômica e de todo o impacto da pandemia, é momento de cautela. É preciso entender como a pandemia afeta a empresa de curto a longo prazo. Como reduzir custos fixos e fazer uma análise profunda. Quais são o fluxo de caixa, as reservas financeiras, as despesas a serem renegociadas… Depois é preciso buscar entendimento das medidas anunciadas no Brasil, não apresentadas de forma negociada, e como tirar proveito disso, tendo alívio de caixa para tomar as demais decisões. Um segundo passo é ter entendimento das consequências para o setor de atuação, com a alteração das relações de trabalho. É preciso agilidade e se readaptar, investir em tecnologia frente à tendência de restrições de deslocamento, para que os funcionários mantenham trabalho remoto e bons níveis de produção. Será preciso liquidez, mais conforto de caixa, menos endividamento, compromissos de longo prazo e disciplina.

Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter

Rafaela Vitória – Depende de setor para setor. Não vimos ainda demissões em massa, como efeito da reforma trabalhista recente do governo ou da pandemia, apesar da perda de renda. Entendemos que as empresas vão chamar funcionários de volta após férias e vão negociar, à medida em que a demanda voltar. A lição que fica é a da liquidez. Não vemos tantos riscos de inadimplência, porque muitos setores estão aprendendo, amadurecendo. Isso ajuda a passar a crise e a retomar a atividade.

 

Quais setores devem se recuperar primeiro? Quais deverão ter maior dificuldade?

Marcela Rocha – A alimentação é a mais procurada no isolamento, assim como os planos de saúde para conter os riscos da pandemia para os casos daqueles que dispõe de recursos. As farmacêuticas, indústrias de álcool em geral e de máscaras também estão se beneficiando. As pessoas estão mudando os hábitos de consumo e as empresas vão mexer da produção aos serviços. Os setores mais favorecidos são os de tecnologia e serviços que a usam. Tudo que é online, de educação, saúde, nutrição, entretenimento… As empresas de marketing e comunicação vão ser essenciais para diversos setores chegarem aos seus públicos diferentes e fortalecer as marcas. E isso vai se dar muito por meio da tecnologia, de um cuidado e inteligência para ampliar vendas e serviços. Por outro lado, os setores que mais perdem são os de serviços, viagens, entretenimento e aglomerações culturais, hotéis, eventos em geral e restaurantes, produtos de beleza e roupas.

Rafaela Vitória – Os setores de supermercado e saúde continuam ativos. Outros devem ter recuperação rápida, como os que usam a tecnologia e a comunicação, que já vinham crescendo. Trata-se de um comportamento natural da sociedade, o crescimento dos meios digitais, a valorização do home office, agora mais aceito frente a preconceitos, com os funcionários indo muito bem. Muito desse comportamento pode ser benéfico e mais eficiente, de grande produtividade. Já os setores do turismo e de lazer vão demorar mais para se recuperar, com fatalidades de alguns negócios.

 

O momento é de investimentos mais conservadores, moderados ou arrojados?

Marcela Rocha – Essa crise traz oportunidade para o investidor avaliar o perfil de risco. Haverá recessão e desemprego, mas houve queda forte da Bolsa, desvalorização do real e é o momento para entender se está você preparado para casos como esses, para aproveitar oportunidades. É preciso adequar os horizontes de investimentos. Se você teve perdas, mas está tranquilo com o seu perfil, então pode buscar alternativas, caso haja reservas e liquidez, tomando riscos. Agora, se você não é arrojado e teve perdas grandes, e além disso não suporta volatilidade, então não tome mais riscos.

Rafaela Vitória – Quando a Bolsa sobe ou cai, todo investidor nos procura e pergunta: vendo ou compro? A gente não deve mexer constantemente nos investimentos. É importante ter uma estratégia de diversificação de acordo com o perfil, e não com o momento, ter uma visão de longo prazo. O mercado agora acalmou um pouco, pois depende muito de certezas e tende à recuperação lá na frente. Olhando para o histórico, toda crise passa.