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Qual o seu (e o meu) lugar de fala no debate sobre igualdade racial?

Depoimento

Qual o seu (e o meu) lugar de fala no debate sobre igualdade racial?

Por Diva Gonçalves*

Nestes tempos em que vivemos, os temas da diversidade racial e do lugar de fala têm se tornado cada vez mais comuns na vida corporativa. Mas que fala é esta? É a fala do preconceito ou a da superação? É a fala da provocação ou a da aceitação? É a fala da história ou a das estórias? É a fala dos que se expressam ou a interpretação da fala dos que se calam? É a fala do que sente na pele ou dos que enxergam a cor da pele?

Neste momento, a questão racial ganhou manchetes na mídia de relevância nacional e internacional depois da morte trágica do norte-americano George Floyd. Aquela pauta que muitas vezes ficou engavetada, ou pior, entalada nas gargantas, presa no coração e tão presente nas mentes de tantos que sabem o que é ser discriminado porque sua face revela um tom de pele característica de uma raça veio à tona e, tudo em meio à tragédia humana do novo coronavírus. 2020 será um ano inesquecível na história da humanidade.

Se a pandemia nos mostrou a ausência de respostas, por se tratar de um vírus até então desconhecido pela comunidade médico-científica, fatos que eram tratados em grupos da minoria, pelo bem ou pelo mal, entraram na pauta de prioridades da sociedade. Caminhamos para o enfrentamento de dilemas que têm provocado, ao longo de séculos, os reais distanciamentos e isolamentos sociais.  Entre eles estão o racismo, a miséria, a falta de saneamento básico, o sistema de saúde e muitos outros.

De fato, a questão racial, especificamente sobre o negro nas sociedades, ganhou o status de prioridade entre as mudanças que precisam acontecer rumo ao sonhado mundo mais igualitário, dito em manifesto, canções, discursos, promessas.

Aproveito este espaço para destacar fatos e atitudes que revelam a empatia ou o descaso, a luz ou a cegueira para uma causa tão relevante da essência humana: a sua raça, a sua história, a sua origem, seus valores.

Sou negra e a vida me concedeu o presente de construir uma carreira em comunicação corporativa passando por várias funções, de revisora estagiária, nos anos 1970, até chegar a um cargo de vice-presidente em uma agência. Trabalhei e liderei times de várias etnias, idades, sexos, assim como atendi empresas de diversas nacionalidades.  Foi fácil? Claro que não. Fui privilegiada? Claro que sim. Teve esforço? Sim, muito. Diante da realidade socioeconômica da maioria dos negros no Brasil, pude escrever uma história bem-sucedida em minha carreira, construída ao longo de mais de 40 anos de atuação.

Tive muito apoio e a benção de trabalhar com líderes que já tinham uma outra visão do potencial humano, independentemente da cor da pele. Mas sei que nós, negros, precisamos provar mais, ir além, porque a discriminação racial ainda persiste em todos os meios.

Então, que falas desejo que a comunicação corporativa destaque com protagonismo – hoje, amanhã e sempre – para contribuir com a mudança de mentalidade, de visão, de comportamentos da sociedade brasileira e, quiçá, que possa influenciar o mundo, já que somos um país de miscigenação? Aqui, algumas singelas reflexões:

  • Ouça – Escute com interesse, sem julgamentos, com conexão de coração e de mente o que o negro pensa, sente, deseja na área profissional e pessoal.
  • Valorize quem ele é – Aceitação da real identidade é o grande valor humano. Quando ele reconhece, valoriza e aceita quem é, tudo muda em seu mundo interior. O profissional ganha. A empresa ganha. A sociedade ganha. Justificativas que parecem “pequenas” são um choque que abala a autoestima do outro. Exemplo: “Você nem é negro/negra, tem os traços tão finos e a cor de pele queimada”; Ao ser apresentado/apresentada para um grupo de pessoas de maior poder de influência, mesmo que o motivo não for trabalho, o nome costuma vir sempre seguido da profissão, função ou da empresa que a pessoa negra representa. Parece ser necessário justificar porque ela está ali.
  • Transforme o assunto em pauta – O tema pode entrar na pauta da empresa por meio de debates, comunicação interna, palestras, redes socais.
  • Estimule o estudo do tema – Desenvolva pesquisas, tenha livros sobre o tema em sua biblioteca (real ou virtual). Una todas as raças para pensarem e estudarem o tema juntas. Compartilhe pesquisas internacionais ou nacional de instituições/empresas.
  • Forme times cada vez mais multirraciais – A diversidade é de extrema relevância para a criatividade, uma das habilidades humanas valiosas do presente e do futuro profissional e pessoal.

Enfim, há muito o que ser feito. Vamos juntos, cada um, encontrar a sua fala e manter esta pauta viva na comunicação corporativa.  Estamos só começando a virar a chave da história de uma raça que sonha disputar, vencer e ocupar seu lugar de cidadão/cidadã valorizado/valorizada pelo que é em uma sociedade sem preconceitos. Cuidar de si e do outro é um princípio valioso que preserva e faz vidas florescerem.

 

*Diva Gonçalves é consultora, executive/career coach, trainer e analista de perfil de comportamental