A revolução ambiental virá do campo

O agronegócio segue aumentando a capacidade produtiva ao passo que avança em práticas sustentáveis. Produzir e preservar não são atividades opostas

 

Por Paulo Herrmann*

A discussão sobre preservação do meio ambiente e redução dos impactos climáticos passa por uma importante aliada: a agricultura. Em um primeiro olhar, pode parecer uma colocação sem fundamento, mas temos diversas evidências que sustentam que produzir e preservar é uma realidade possível, especialmente no Brasil.

A agricultura, afinal, é a grande vocação econômica brasileira, responsável por uma larga fatia do PIB. Somos os principais produtores e exportadores de laranja, açúcar, café, soja, milho e proteína animal. E fazemos isso preservando mais de 60% do território nacional.

Tal posição no mercado internacional é extremamente estratégica: estima-se que a demanda mundial por alimentos vá aumentar 70% até 2050, para atender uma população de 10 bilhões de pessoas, e os países que mais crescem atualmente, a China e a Índia, têm uma economia voltada para indústria e serviços, com pouco espaço e interesses para a agropecuária. Temos aí uma perfeita combinação entre demanda e potencial para suprir essa necessidade.

Isso não significa que precisamos aumentar a nossa área de produção. Ao longo dos últimos 40 anos, tivemos uma verdadeira revolução no campo. No início, tínhamos dificuldade de encontrar solos aptos para produção, pois na região tropical eles são ácidos, ricos em alumínio tóxico e muito pobres em nutrientes. Antes da década de 1970, o País não conseguia manejar seus recursos naturais, e produção e produtividade eram muito baixas. Mesmo com território enorme, éramos importadores de alimentos.

Mas acabamos desenvolvendo uma agricultura avançada, baseada em ciência e uma inédita plataforma de práticas sustentáveis. Desde então, enquanto a produção agrícola cresceu mais de 500%, a área reservada ao cultivo aumentou não mais que 70%. Ou seja: estamos produzindo muito mais por hectare.

Com todos esses avanços, hoje dedicamos apenas 30% do território nacional à agropecuária, enquanto 66% das terras são preservadas. Como comparação, os Estados Unidos têm 74% de sua área dedicada à agricultura, pastagens e operações florestais, enquanto a preservação chega a 20%.

Claro que, nem por isso, os crescentes dados de desmatamento deixam de ser alarmantes. Mas a ilegalidade é exceção e não regra, e precisa ser enquadrada com o rigor da lei, tanto por prejudicar os patrimônios naturais como por manchar a imagem de um setor tão significativo para a economia do Brasil.

Se parte das soluções envolve tecnologia de ponta, conectividade e até inteligência artificial, outra parte se refere a práticas mais sustentáveis, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), um sistema que otimiza o uso do solo, melhora a fertilidade, aumenta a produtividade, permite diversificar as atividades econômicas na propriedade e minimiza os riscos para o produtor. O ILPF também enriquece a biodiversidade local, recupera áreas de pastagem degradadas e proporciona o sequestro de carbono – ou seja: ajuda a reduzir a emissão de gases geradores de efeito estufa.

O agronegócio segue aumentando a capacidade produtiva ao passo que avança em práticas ambientais. Produzir e preservar não são atividades opostas. Muito pelo contrário: com o conhecimento e os meios necessários, são complementares, e o Brasil tem condições de progredir cada vez mais na próxima década. A revolução do campo não para. E os futuros habitantes deste planeta terão ainda mais qualidade de vida e segurança alimentar para seguir inovando.

 

*Paulo Herrmann é presidente da John Deere Brasil