CDI_On

Problemas globais, soluções nacionalistas?

O desafio da integração na era dos conflitos sino-americanos

Problemas globais, soluções nacionalistas?

Por Rafael Cortez*

 

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, indicou que a administração Trump poderá limitar o acesso de usuários norte-americanos ao Tik Tok, aplicativo de origem chinesa que se tornou a coqueluche das redes sociais. O simbolismo da ação dos Estados Unidos, contudo, não retrata um movimento inédito. A Índia já fez esse movimento. Mais do que uma disputa em torno das redes sociais, a preocupação de líderes mundiais com o aplicativo, retrata um temor com o crescente protagonismo da China na comunidade internacional. O resultado dessa complexa rede de conflitos entre as maiores potências, no limite, define a natureza do ambiente internacional, central para o entendimento das chances de recuperação das economias emergentes. O Brasil é especialmente afetado pelo ambiente externo devido à sua necessidade de atração de poupança externa. Diante do quadro fiscal preocupante da economia brasileira, a mobilização de investimento externo é uma porta bastante convidativa.

Não se trata de um conflito isolado. Protecionismo comercial, tecnologia do 5G, proteção à propriedade intelectual e o status de Hong Kong são as principais fontes de risco político no plano internacional. A magnitude dos focos de disputa entre Estados Unidos e China sugere uma nova bipolaridade no plano do sistema internacional. Se a segunda metade do século XX não pode ser entendida sem referências à Guerra Fria, o futuro da ordem internacional passa pelos desdobramentos entre as duas maiores potenciais.

A eclosão da pandemia em escala global aparece como elemento complicador na pacificação nas relações entre as principais potências. A pandemia retratou o desafio do sistema político chinês no desenvolvimento do chamado “soft power”, recursos de poder construídos a partir de simbolismos, imagens e valores capazes de gerar janelas de oportunidade de cooperação entre nações soberanas. A responsabilização sobre a origem do vírus se tornou estratégia política do governo Trump.

As evidências empíricas explicam a estratégia do mandatário norte-americano. As pesquisas de opinião pública no país mostram a consolidação de uma imagem negativa da China no país. A rejeição à China nos Estados Unidos atingiu 66%, em 2020, alta de 21 pontos percentuais em um período de dois anos, de acordo com pesquisas realizadas pelo Pew Research Center. 62% da sociedade enxerga a China como uma grande ameaça aos Estados Unidos. Esse sentimento de rejeição não sofre influência da coloração partidária. Ele é comum a republicanos (72%) e democratas (62%).

A percepção de riscos da emergência chinesa no âmbito internacional não é exclusiva dos Estados Unidos, mas afeta uma parcela relevante dos países. Curiosamente, há uma correlação negativa entre renda e preocupação com a China. Assim, os países mais ricos são aqueles que possuem maior sensação de risco.

2020 é um ano importante para afetar os destinos do cenário internacional. A eleição presidencial norte-americana é um fator chave no encaminhamento dos conflitos geopolíticos. Não por conta de uma possível reviravolta com a potencial vitória do partido Democrata por meio da campanha de Joe Biden. O “Make America Great Again” seria substituído por uma nova versão nacionalista “Made in All of America”.

A eleição nos Estados Unidos, contudo, pode afetar o papel das instituições multilaterais na organização da nova ordem internacional. O presidente Trump, grosso modo, rompeu com a ideia de alianças estratégicas e pouco legitimou as organizações internacionais como espaço para tomada de decisão. Meio ambiente, comércio, segurança e até mesmo saúde foram alvo de desconstrução ao longo da atual administração.

A pandemia reforçou o medo de dependência dos países em insumos estratégicos, o que poderá contribuir para o aprofundamento na reversão da integração mundial. A eventual vitória do candidato democrata pode minimizar a percepção de risco elevado.

Esse ambiente internacional é extremamente importante para o Brasil em sua travessia para a retomada das empresas. Ambiente internacional instável é sinônimo de fuga de capital, instabilidade cambial e protecionismo econômico. A liquidez internacional pode não chegar ao país.

Além disso, o governo brasileiro fez uma aposta na emergência do “novo conservadorismo” ao redor do mundo, especialmente em sua ligação com os Estados Unidos. Trump se tornou o símbolo do governo, justificando uma série agendas que colocam em risco a retomada do crescimento. A defesa do “globalismo” já aparece como custo econômico, como retrata a celeuma em torno da questão ambiental, ameaçando os passos de integração comercial aprovados recentemente.

A pandemia trouxe o desafio da sobrevivência e renovação das empresas brasileiras. O nosso destino está interligado aos eventos internacionais. 2020 tem um cardápio de eventos que merecem atenção dos tomadores de decisão.

 

* Rafael Cortez é sócio da Tendências Consultoria e doutor em Ciência Política pela USP

rcortez@tendencias.com.br