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Pandemia e compliance: as vantagens de quem
se preparou para a crise

Por Wagner Giovanini

Pandemia e compliance: as vantagens de quem  se preparou para a crise

Estamos enfrentando uma enorme crise com inúmeras consequências desastrosas às pessoas, empresas e sociedade. Situações como essa, em geral, não são previstas e, por causa disso, o agravamento de seus desdobramentos torna-se inevitável.

A falta de prevenção, ainda mais agora, configura-se numa grande falha no cotidiano de boa parte dos executivos, pois, assim sendo, colocam em perigo não apenas as suas posições, mas também os empregos de outras pessoas e a própria sobrevivência de uma empresa.

No primeiro momento, a negação da realidade é o caminho comum percorrido por muitos. Isso acontece até serem carregados pela tempestade. De maneira idêntica, ocorre nas organizações. Muitas vezes, colaboradores conhecem os riscos, mas ainda assim, apostam de forma irresponsável na sua não materialização. Porém, com frequência, o desconhecimento dos riscos prevalece e, quando acontecem, não há mais tempo para soluções.

Diante desse cenário, compliance e mecanismos de integridade são fundamentais. Se negligenciados, farão imensa falta àquelas organizações, por exemplo, flagradas em irregularidades contempladas pela Lei Anticorrupção. A situação provável é que venham a sucumbir, não apenas por consequência das pesadas multas e penalidades privando-as de novos negócios, mas, principalmente, pelo impacto irremediável a sua imagem.

Cabe lembrar o efeito danoso da corrupção. Sem dúvida, é um dos maiores males que assolam o planeta, promove a desigualdade social, a fome. A Lei Anticorrupção brasileira (Lei 12.846/13), mais adequadamente denominada de Lei da Empresa Limpa, entrou em vigor em 29 de janeiro de 2014, com o propósito de ajudar a construir um Brasil melhor, com mais ética e integridade. O seu propósito é eliminar a figura do corruptor, com a criminalização severa de empresas, privadas ou estatais, implicadas em ilicitudes contra a administração pública. Dessa forma, mesmo havendo corruptos, exclui-se a figura do “alimentador” dessa prática inadequada, infelizmente, vista com frequência nos últimos anos.

Voltando à pandemia, qual a importância de um mecanismo de integridade em uma crise já deflagrada?

Com um mecanismo de integridade bem desenhado e implementado, a empresa terá um controle social, no qual os próprios funcionários ajudarão a coibir práticas inadequadas. Além de proteger a instituição empresarial, cada um contribui para preservar seus próprios empregos. Mas, o mais sensacional, na atualidade, é constatar a colaboração concreta, honesta e efetiva dos funcionários em geral em temas de diversas naturezas.

Considere um colaborador em home office. Sua produtividade, dedicação, cumprimento das regras e respeito à confidencialidade das informações serão decisivos para conferir um resultado valoroso ou trágico para a organização. Possivelmente, cada um agirá de acordo com o seu caráter e princípios. Porém, a existência ou não de treinamentos, comunicação e exemplos positivos dos superiores farão uma diferença significativa. Nessa mesma direção, há outros riscos minimizados pela conscientização dos profissionais, pois, de certo, haverá flexibilização de regras e abertura de exceções por conta da situação emergencial do momento e as pessoas teriam a sua disposição possibilidades maiores de fraudes, roubos, desvios e outras ilicitudes.

Para uma organização sem mecanismo de integridade, o tempo para prevenir não existe mais. Portanto, sua inexistência é fato consumado e implicará em dano considerável. Desse modo, não resta dúvida haver uma probabilidade muito maior de sucesso, no enfrentamento dessa crise, para aquelas com um sistema efetivo.

Estatísticas obtidas pela Contato Seguro, empresa do grupo da Compliance Total, apontam uma constatação interessante do canal de denúncias. Durante o início do confinamento social, o volume de recebimento de denúncias/relatos cresceu cerca de 50% em boa parte dos clientes. Esse dado expressivo deve ser fruto de um bom trabalho feito pelo mecanismo de integridade e revela o crescente interesse de funcionários bem-intencionados, muitos de suas casas, buscando colaborar na correção de irregularidades e desvios, para a construção de uma organização melhor. Essa contribuição não é possível onde um canal de denúncias é inexistente ou não efetivo.

Existe uma correlação direta entre a presença de um mecanismo efetivo e o seu valor agregado para as empresas, desde o benefício direto à companhia até o interesse e proatividade de seus profissionais. Tanto nas crises inesperadas como esta, quanto nas anunciadas, decorrentes de riscos conhecidos e não tratados, o mecanismo de integridade faz uma diferença colossal, mas a organização só sentirá esses efeitos positivos se tiver tomado antecipadamente as providências.

Esta não é a primeira nem a última crise a ser combatida. Portanto, buscar a implementação do mecanismo de integridade em sua empresa configura-se em medida, no mínimo, sensata.

Wagner Giovanini é especialista em compliance e sócio-diretor da Compliance Total e Contato Seguro. Autor do livro Compliance – a excelência na prática.