CDI_On

O impacto do movimento Black Lives Matter sobre o mundo corporativo nos EUA

Artigo

O impacto do movimento Black Lives Matter sobre o mundo corporativo nos EUA

Por Ernesto Ortiz*

As notícias sobre o assassinato de George Floyd e as consequentes manifestações do movimento Black Lives Matter (BLM) vem dominando a mídia americana nas últimas semanas, suplantando as manchetes sobre o novo coronavírus e a crise econômica. Recente pesquisa da agência Mindshare confirmou essa tendência, mostrando que temas relacionados ao racismo ultrapassaram a Covid-19 e a crise econômica como maiores preocupações dos americanos.

A população, em sua maioria branca, abraçou a causa e foi às ruas em manifestações que varreram o país de norte a sul e repercutiram no mundo inteiro. Personalidades influentes, negras e brancas, de Beyoncé e Lebron James a Taylor Swift e Hugh Jackman, repercutiram o mantra “I can’t breath” e botaram a boca no trombone, exigindo mudanças na forma como cidadãos negros são tratados. A rede CBS divulgou uma pesquisa apontando que 57% dos americanos acreditam que a polícia tem maior probabilidade de usar força letal contra uma pessoa negra do que com uma branca. Em 2016, apenas 43% achavam isso.

A dimensão das manifestações foi tamanha que forçou empresas, de bancos de Wall Street a tecnológicas do Vale do Silício, a anunciar diversas iniciativas em apoio ao BLM. Mas ao contrário das declarações de solidariedade e gestos simbólicos do passado, dessa vez a sociedade vem exigindo atitudes concretas. Muitas empresas têm respondido com significativas doações a causas negras e com medidas concretas para combater a injustiça racial e promover equidade, inclusão e diversidade.

A brutalidade da cena, capturada em vídeo, tem muito a ver com a enorme comoção gerada. As câmeras dos smartphones se tornaram um aliado implacável dos ativistas e são responsáveis pelas provas irrefutáveis da brutalidade policial enfrentada constantemente pela população negra. As imagens, em alta resolução e viralizadas pelas redes sociais, parecem ter sido a gota d’água de uma crise anunciada e que encontrou uma sociedade pronta para reagir de uma forma que não se via desde os anos 60.

O comportamento dos consumidores com relação às ações (ou falta de) por parte das grandes marcas ainda é uma incógnita. Mas uma coisa parece certa: dessa vez, o oportunismo não será tolerado. Exige-se ações concretas e duradouras.

Existe um grande ceticismo em relação às promessas das Fortune 500. E com razão. Só que nunca se viu uma reação em cadeia tão ampla e vigorosa como desta vez. Temos visto muitas ações concretas por parte de empresas, como a Pepsico, que prometeu retirar das embalagens as imagens da mulher negra das misturas de panquecas da marca Tia Jemima. Há também os US$ 120 milhões doados pelo CEO da Netflix às universidades negras, ou o Starbucks disponibilizando camisetas da BLM a seus funcionários, além de uma série de outras iniciativas por parte de empresas como Walmart, Apple, Comcast, L’Oreal etc. A primeira coisa que se vê numa visita às páginas iniciais do website de empresas de ponta como Goldman Sachs, Microsoft e McKinsey são as iniciativas relacionadas à igualdade e à justiça racial.

Até o CEO da National Football League, a liga desportiva mais rica e poderosa do mundo, passou a incentivar a contratação do jogador Colin Kaepernick, depois de proibir um gesto de protesto dele durante as partidas (ele se ajoelhou durante o hino nacional americano em algumas partidas de seu time, o San Francisco 49ers), que contribuiu para seu ostracismo.

E o movimento continua pressionando. Muitas vezes de forma controversa, como os recentes ataques aos monumentos que, de alguma forma remetem à repressão racial. O Facebook vem enfrentando uma crise relacionada ao boicote promovido por movimentos sociais contra discursos racistas e de ódio na rede social.

E como esse tema pode impactar as comunicações corporativas no Brasil? Guardadas as proporções históricas e enormes diferenças culturais entre Estados Unidos e Brasil, o fato é que desigualdade social, exclusão racial e baixa diversidade são problemas comuns aos dois países. E enquanto apenas 13% da população americana é negra, o Brasil tem uma parcela bem maior dessa população —mais de 50%, o que faz do país a segunda maior nação negra no mundo.

Além disso, segundo o IBGE, o número de pessoas que se declaram negras vem aumentando, possivelmente por se sentirem mais empoderadas.

Ou seja, a questão do racismo não pode e não deve mais ficar em segundo plano.  As empresas precisam rápida e proativamente reagir com medidas concretas de apoio. Com autenticidade e sem hipocrisia. A enorme participação, sem precedentes, das companhias no Brasil durante essa pandemia é um indicador de uma nova mentalidade e de uma tendência positiva de participação corporativa na resolução de problemas sociais crônicos. Isso tem que virar rotina. Não apenas porque é o certo, mas também porque pode impactar a sobrevivência dos negócios daqui para a frente.

 

*Ernesto Ortiz é consultor de marketing e comunicação radicado em Miami, FL e apoia empresas de startups a Fortune 500 em projetos nas Américas