Essa foi uma eleição como nenhuma outra. Não bastasse a presença de um presidente incumbente imprevisível, a eleição aconteceu em meio à pior crise sanitária em um século. Apesar das pesquisas terem apontado ampla vantagem de Biden ao longo dos últimos meses, os resultados não mostraram a “onda azul” que muitos esperavam.

O entusiasmo dos eleitores foi enorme, como mostraram as longas filas nas estações de votação. Os números revelaram um comparecimento histórico às urnas. Se estima que mais de 150 milhões de eleitores tenham votado, ou seja, uma parcela de quase 65% das pessoas aptas a votar. Uma grande parcela dos eleitores preferiu votar por correio. E até isso refletiu a atual polarização do eleitorado, pois uma proporção muito maior de democratas votou por correio.

Os gastos de campanha quebraram todos os recordes. Aqui na Flórida, onde moro e que tradicionalmente é um dos estados-pêndulo que decidem eleições, ninguém aguentava mais receber propaganda política de todas as formas possíveis e imagináveis – via correio tradicional, e-mail, TV, Internet e até chamadas no celular, uma novidade esse ano. Fomos inundados de propaganda, quase sempre negativa.

Finalmente, depois de uma longa e angustiante espera, Joe Biden alcançou o número de votos eleitorais necessários. Com projeções de alcançar 80 milhões de votos (recorde histórico) e uma decisiva vantagem tanto no voto eleitoral quanto no popular, ele já começou a preparar sua equipe de transição.

 

Trump, por seu lado, ainda não aceitou a derrota e continua apregoando uma série de recontagens de votos e ações jurídicas. Mas estas têm sido descartadas por falta de evidências. Chama atenção também a pouca adesão da mídia conservadora e de tradicionais caciques do Partido Republicano à cruzada judicial do atual presidente para tentar mudar o resultado das urnas. Houve alguns comentários de apoio, mas, em geral, foram genéricos e burocráticos.

O que muda com a eleição de Biden e como isso afetará a economia e os negócios? As administrações republicanas tradicionalmente são consideradas mais favoráveis aos negócios, apoiando menos impostos e regulações. Mas, na semana passada, as bolsas tiveram forte alta quando as apurações indicaram uma vitória de Biden, e continuaram a tendência neste princípio de semana.

Num artigo recente, o Wall Street Journal mostrou que a bolsa de valores costuma subir no primeiro ano de mandato de um presidente, independentemente de quem ocupe a Casa Branca.

A ampla experiência política de Biden, assim como seu estilo de liderança conciliador, agrada aos mercados. A possibilidade de um Senado com maioria republicana – o que dificultaria a reversão de pautas pró-negócios implementadas por Trump – também é vista com bons olhos pelos analistas.

Além disso, o recente anúncio de que o PIB americano cresceu 33% no terceiro trimestre mostra que uma robusta retomada econômica já está em curso, puxada pelos setores de imóveis e construção, tecnologia, e-commerce e manufatura. Esses setores têm forte poder multiplicador e compensam, com folga, as dificuldades de ramos muito abalados pela pandemia, como o turismo, o setor de eventos e o setor aéreo.

Outro fator positivo é a “destruição criativa” que vem se desenhando. Por exemplo, os muitos restaurantes de bairro que fecharam por não ter fôlego financeiro para surfar a pandemia poderão ser rapidamente substituídos por novos restaurantes assim que a população se sinta plenamente confiante para jantar fora e a demanda retorne aos níveis pré-crise.

Ainda neste sentido, dados do governo mostram um aumento recorde no número de registros de novos negócios, com alta de 40% em relação ao ano passado. Nenhum outro país rico chegou perto desse nível de expansão do empreendedorismo.

O grande desafio de Biden passa a ser a recente ressurgência do vírus, que tem disparado principalmente nas zonas rurais dos EUA, que tinham sido poupadas na primeira onda. Trump preferiu minimizar o risco da pandemia e isso lhe custou a reeleição.

Biden, por outro lado, se posicionou como o paladino da ordem no combate ao coronavírus. Essa aposta se provou ganhadora. Agora eleito, o democrata terá a complicada missão de colocá-la em prática de forma que contenha a proliferação da Covid-19 sem comprometer a recuperação econômica. Com isso em mente, ele já disse que anunciará, de imediato, uma força tarefa de combate ao vírus.

Entre outras prioridades do presidente eleito, se encontram também a aprovação de um pacote de estímulo com fortes investimentos em saúde, educação e infraestrutura como forma de impulsionar a economia, e o retorno dos Estados Unidos ao acordo climático de Paris.

Até a posse em janeiro, muita coisa pode mudar com relação à Presidência e à pandemia, com a possibilidade do surgimento de novos tratamentos e a aprovação de vacinas contra a Covid-19. Mas uma coisa é certa: os Estados Unidos continuarão sua marcha em direção à normalidade e à retomada, pois o show deve continuar.

*Ernesto Ortiz é consultor de marketing e comunicação radicado em Miami, FL e apoia empresas, de startups a Fortune 500, em projetos nas Américas