“Todos num mesmo barco, remando na mesma direção, contra um mesmo inimigo”. É assim que o médico José Luiz Egydio Setúbal vê o mundo e o Brasil, quase dois meses após a decretação da pandemia da Covid-19. Essa união de esforços de pessoas, empresas, governos e instituições, na visão do presidente do Hospital Sabará e vice-presidente do Instituto Pensi, deve resultar num aumento permanente da filantropia no país.

“Acredito que depois deste episódio o mundo será mais solidário. No Brasil, nunca se doou tanto como nestes dias. Empresas, bancos, pessoas, todos querem doar”, afirma Setúbal. Acionista do Itaú Unibanco, ele já doou R$ 1 milhão por meio da fundação que leva seu nome, enquanto a instituição de sua família fez o maior repasse de recursos para apoiar o enfrentamento da pandemia no país até o momento: R$ 1 bilhão.

Para o pediatra, a resposta do setor de saúde no Brasil no combate ao surto, com a articulação entre os sistemas público e suplementar, tem sido surpreendentemente positiva. “A saúde pública brasileira é muito boa, é reconhecida por seus epidemiologistas e pela sua saúde comunitária. O SUS faz milagres com as verbas que recebe e acho que mesmo com a estrutura que temos, iremos enfrentar bem esta crise sanitária. Penso que o SUS sairá fortalecido”, prevê.

 

Confira a íntegra da entrevista:

 

O Brasil e o mundo estão passando por uma crise sanitária sem precedentes, com reflexos inéditos no modo de vida das pessoas e na economia. Como avalia que está sendo a resposta da sociedade até o momento? No que ainda precisamos avançar?

Talvez estejamos passando por mais do que uma crise sanitária. Explico: estamos sendo forçados de alguma maneira a pensar sobre a vida. A vida que levávamos e a vida que levaremos. Talvez devêssemos neste momento, após a Semana Santa, pensar na Homilia do Papa Francisco do dia 27 de março, e refletir que o mundo não está doente agora na pandemia, mas já vem doente há muito tempo. Nesse sentido, a pandemia foi um alento – voltando ao Papa – pois pôs todos num mesmo barco, remando numa mesma direção, contra um mesmo inimigo. Precisamos avançar muito aqui no Brasil, na busca da solidariedade para diminuir as desigualdades.

 

O setor de saúde é a linha de frente na luta para conter a disseminação da pandemia. No Brasil, há o desafio de coordenação dos sistemas público e privado nos estados e municípios. Acredita que essa articulação está sendo efetiva? Estamos preparados para passar pela fase mais aguda da crise?

O Brasil teve a sorte de poder aprender com o que aconteceu na Europa e pôde, com isso, se preparar com o pouco tempo que havia. Confesso que fiquei surpreendido com o planejamento e a execução deste plano, pelo menos aqui em São Paulo, onde pude acompanhar mais de perto. A saúde pública brasileira é muito boa, é reconhecida por seus epidemiologistas e pela sua saúde comunitária. O SUS faz milagres com as verbas que recebe e acho que mesmo com a estrutura que temos, iremos enfrentar bem esta crise sanitária. Com bastante interação do sistema suplementar com o público, com os sistemas estaduais, municipais e federais que de alguma forma se coordenarão, se os políticos ajudarem. Penso que o SUS sairá fortalecido dessa crise.

 

A rapidez de disseminação e a gravidade da pandemia pegaram alguns países de “surpresa”. Do ponto de vista de saúde, que aprendizados podemos tirar dessa crise para evitar ou minimizar casos semelhantes no futuro?

Aparentemente isso foi de alguma forma previsto. Há um TED Talk do Bill Gates rodando por aí, de 2015, no qual ele previa uma pandemia com impressionante precisão. Outras pessoas também alertavam, tivemos algumas ameaças. ‘Algum dia a casa cai’, como se diz. A casa caiu. Creio que o mundo será diferente daqui para frente. Como será? Não sei.

 

Há algum tempo o senhor tem feito um esforço pessoal para fomentar uma cultura de doação no Brasil. Esse momento limítrofe pelo qual passamos pode estimular um aumento da filantropia no país?

Acredito que depois deste episódio o mundo será mais solidário. Penso que a filantropia no Brasil terá um papel importante nos próximos meses. Não só a filantropia empresarial, mas a filantropia pessoal. Nunca se doou tanto como nestes dias. Empresas, bancos, pessoas todos querem doar. Tem sido muito bonito e acredito que esse movimento vai continuar.