Em 2020, a transformação chegou, mas não do jeito que se imaginava. Um novo tipo de coronavírus, identificado pela primeira vez em 31 de dezembro de 2019, na China, provocou o que a princípio parecia um surto de gripe na cidade de Wuhan, mas que viria a se tornar uma pandemia global. Aos poucos, os desafios começaram a se desenhar de forma mais clara: para algumas pessoas, o vírus desencadeava problemas respiratórios gravíssimos, além de ter um período de transmissão maior comparado com outras variedades (cerca de 14 dias, em vez de 2 ou 3) e ameaçava colocar em colapso o sistema de saúde chinês. Pessoas e cidades isoladas, hospitais inteiros construídos às pressas, nada resolveu: a Covid-19 resolveu ganhar o mundo.

Da China, o vírus seguiu rumo ao Ocidente e o que começou como um surto logo se transformou em epidemia, se espalhando por diversos países. No Brasil, o primeiro caso foi confirmado em 25 de fevereiro. Doze dias depois, em 11 de março, a Organização Mundial de Saúde declararia oficialmente que o planeta enfrentava uma pandemia.

Federico Servideo, sócio da PwC Brasil

No momento, praticamente todos os países adotam medidas de isolamento social para reduzir o ritmo de contágio. Viagens internacionais estão restritas e segmentos econômicos não-essenciais paralisados, afetando o fluxo de comércio global e o nível de atividade interno dos países. Para Federico Servideo, sócio da PwC Brasil, o mundo passa por um desafio sem precedentes. “O que estamos aprendendo, minuto a minuto, e que está ficando cada vez mais claro, é que haverá um mundo diferente, um ‘novo normal’ após a Covid-19”, diz o executivo.

A firma global de consultoria e auditoria tem acompanhado continuamente o desenvolvimento da pandemia, avaliando os impactos provocados na sociedade e no mercado pelo vírus, principalmente a partir das quarentenas impostas pelos governos. Recentemente, lançou uma ferramenta, a Covid-19 Navigator, que permite aos empresários avaliar o impacto da pandemia em seus negócios e os orienta sobre quais atitudes podem ser tomadas de forma a mitigar os efeitos da paralisação, uma vez passada a crise. Efeitos, por sinal, que ainda não se sabe quais serão.

“É muito difícil mensurar ou prever os impactos. Temos poucas referências – como a greve dos caminhoneiros de 2019, a epidemia do SARS no início da década passada ou a própria crise econômica de 2008 – mas nada que possa se assemelhar a isso: uma crise sanitária, com impacto econômico num mundo totalmente conectado, com difusão e acesso instantâneo à informação”, afirma Servideo. “Claramente os impactos serão relevantes, mas isso vai depender muito da longevidade da pandemia, da duração das quarentenas, da queda da atividade econômica em cada país e do momento em que o mundo começará a se recuperar”, analisa.

No Brasil, em apenas 30 dias o número de infectados chegou a cerca de 5 mil. Após orientação do Ministério da Saúde e decretos de quarentena por parte de governadores e prefeitos, o país, de certa forma, parou. Apenas serviços essenciais como alimentação, saúde, abastecimento, limpeza urbana, segurança pública e bancos foram mantidos. Enquanto não há definição sobre o fim das quarentenas, os impactos já se anunciam: projeções divulgadas no último dia 30 de março pelo Banco Central no relatório “Focus” previram pela primeira vez uma retração no PIB brasileiro em 2020.

Cenários de recuperação

Diante desse cenário de incerteza, o sócio da PwC Brasil acredita existirem três macrocenários possíveis. “No primeiro, chamado de contido, o isolamento populacional e os movimentos de controle previnem a propagação da doença. Neste cenário a possibilidade é que a recuperação do mercado demore mais ou menos três meses, e o PIB retorna ao esperado anteriormente”, explica Servideo. “No segundo cenário, chamado de Hot Spots, a sociedade consegue controlar a disseminação, mas daqui a 3 ou 4 meses surge um novo pico de surto, que começa a se repetir, ainda dentro do que o sistema de saúde permite gerenciar. Isso vai provocar um achatamento do PIB, mas que se manterá estável até a vacina aparecer. Já no terceiro cenário, mais catastrófico ou pandêmico, as medidas falham em conter a pandemia e a recessão chega profundamente afetando as economias de inúmeros países”, complementa.

A network de firmas da PwC está acompanhando de perto os desdobramentos dessa situação nos mercados. Uma das pesquisas divulgadas, a Covid-19 CFO Pulse Survey, tem sido realizada a cada duas semanas, tentando identificar as percepções e prioridades de mais de 150 líderes financeiros ao redor do globo em relação à pandemia. A firma também tem oferecido estudos e insights para os mais diversos setores, de forma a orientar clientes e sociedade sobre a melhor forma de enfrentar a crise.

Segundo Servideo, os levantamentos permitem dizer que as organizações já vivenciam mudanças significativas. “Muitos clientes nossos conseguiram colocar toda a força de trabalho em home office porque estavam preparados para isso. Então, é possível questionar se esse modelo de trabalho em casa full time poderá se tornar permanente”, comenta o executivo. “Isso cria impactos significativos no setor imobiliário, na mobilidade urbana, na infraestrutura dos bairros. O próprio setor da saúde, apesar de potenciais crises, sofrerá mudanças – os Estados Unidos, por exemplo, terão que repensar seu sistema. Novos modelos de negócios virão a substituir os existentes, dado que os comportamentos dos consumidores serão diferentes. O papel do setor público e dos governos e governantes passarão por um profundo escrutino por parte dos cidadãos. A digitalização será um fato corriqueiro em todos as atividades da humanidade, o Covid-19 veio para implementar definitivamente o novo normal, digital e baseado em dados”.

Mas os novos tempos também podem trazer novas considerações. “Nós já passamos por crises e tivemos uma recuperação rápida para vários setores. É uma oportunidade para melhor nos qualificar, para aprender.  Acontecerão mudanças num primeiro momento, necessárias para a adaptação, mas a partir do momento em que a crise acabar, essa recuperação será possível. É questão de tempo e, enquanto isso, é preciso manter a resiliência e o aprendizado contínuo”, conclui Servideo.