Em tempos de pandemia do novo coronavírus, administrar organizações do terceiro setor tem sido um grande desafio. Para se ter uma ideia, apenas AACD, Instituto Jô Clemente (antiga APAE DE SÃO PAULO), Fundação Dorina Nowill para Cegos e Derdic estimam perdas na casa dos R$ 75 milhões este ano, em razão, principalmente, da redução das doações de empresas e pessoas físicas e da queda na receita com os planos de saúde. As entidades também precisam lidar com a paralisação dos atendimentos presenciais, com a queda de receitas com créditos da Nota Fiscal Paulista e com a impossibilidade de realizar eventos de arrecadação, a fim de evitar aglomeração de pessoas. Outro fator de impacto é a suspensão de projetos incentivados por órgãos do poder público.

Para conter as perdas e manter o caixa com recursos suficientes para continuar operando, as quatro instituições lançaram a campanha Todos Por Um, que visa conscientizar a iniciativa privada, o poder público e a sociedade civil sobre a importância do apoio oferecido às pessoas com deficiência em todo o Brasil. A ideia é contar com doações para manter os projetos de saúde, educação, bem-estar e inclusão social dessa classe da população.

 

Filme da campanha

A previsão é de que a AACD — que atua há quase 70 anos na causa da pessoa com deficiência física e conta nove unidades em diferentes estados do país — tenha um impacto de R$ 50 milhões no orçamento deste ano, seguida pelo Instituto Jô Clemente — que está há 59 anos trabalhando pelas pessoas com deficiência intelectual–, e deve registrar déficit de R$ 16 milhões no caixa até dezembro. Entre a Fundação Dorina Nowill para Cegos e Derdic (que apoia pessoas com deficiência auditiva), o prejuízo deve chegar a R$ 9,2 milhões.

“Nós entendemos que agora é hora de unir forças em prol da causa da deficiência no Brasil. Juntos, Instituto Jô Clemente, AACD, Fundação Dorina Nowill para Cegos e Derdic realizam um trabalho essencial na inclusão social, na defesa e garantia de direitos, na produção e disseminação de conhecimento e na prevenção e promoção de saúde e de melhor qualidade de vida às pessoas com deficiência. É muito importante que a sociedade se conscientize e se engaje nessa causa”, afirma Daniela Mendes, superintendente-geral do Instituto Jô Clemente. “O grande objetivo dessa campanha é permitir que as pessoas atendidas e seus familiares continuem tendo o apoio necessário para seu empoderamento e sua plena inclusão na sociedade”, comenta.

No Instituto Jô Clemente, são oferecidos serviços como Teste do Pezinho, diagnóstico e acompanhamento de pessoas com deficiência intelectual ou atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, terapias de estimulação e habilitação, atendimento educacional especializado (visando a educação inclusiva), inclusão profissional, defesa e garantia de direitos, assistência social, prevenção e combate à violência, atendimentos na 1ª Delegacia de Polícia da Pessoa com Deficiência, pesquisas e cursos de especialização e capacitação em deficiência intelectual, além do apoio ao envelhecimento.

Já a AACD presta atendimento completo e de excelência em ortopedia, graças a uma infraestrutura completa dedicada à reabilitação de pessoas com deficiências físicas e necessidades ortopédicas – composta por um hospital ortopédico, nove unidades de reabilitação e cinco oficinas para fabricação de produtos ortopédicos. Em 2019, a Instituição realizou mais de 880 mil atendimentos especializados para pacientes de todas as idades, via SUS, particular e convênios, entregou 61 mil produtos ortopédicos e fez cerca de 7.500 cirurgias ortopédicas.

“Nesse momento tão difícil para toda a humanidade, em que estamos diante do maior desafio da nossa geração, é muito gratificante poder estar ao lado de instituições que vivem um dia a dia semelhante ao nosso, tratando da causa da pessoa com deficiência. Com essa união, queremos mostrar à sociedade com clareza o que estamos vivendo e chamar todos para esse fundamental engajamento. Somente com a doação de todos poderemos seguir cumprindo a nossa missão, que é cuidar de pessoas com deficiência”, afirma Edson Brito, superintendente de Marketing e Relações Institucionais da AACD. ​

As doações podem ser feitas pelo site todosporum.org.br, em que o doador pode saber mais sobre as organizações e escolher fazer aportes únicos ou mensais de, no mínimo R$ 20, para uma ou mais instituições.

 

Adaptação ao isolamento

Durante esse período de isolamento social, recomendado pelos órgãos de saúde de todo o mundo, as quatro instituições têm adotado estratégias para manter os atendimentos remotamente. Entre as soluções implantadas estão os atendimentos em formato de telemedicina, que incluem a produção de vídeos com atividades que podem ser feitas em casa, consultas à distância, guias e cartilhas de orientação disponibilizados para download, apoio pedagógico à distância e aconselhamento por telefone, além de triagens auditivas neonatais universais com uso de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) para proteção dos profissionais. Há ainda atendimentos aos pais e demais familiares, principalmente na defesa dos direitos das pessoas com deficiência em relação aos benefícios concedidos pelo governo nesse período de pandemia.

“Apesar das grandes dificuldades financeiras, estamos fazendo de tudo para não deixar os nossos pacientes sem assistência durante esse período. Na primeira semana do isolamento social, iniciamos o trabalho com telemedicina, e uma ação inovadora nessa área foi a produção de uma série de vídeos com orientações aos nossos pacientes. Nesses vídeos, os nossos especialistas (médicos fisiatras, ortopedistas, psicólogos e terapeutas) orientam sobre como manter a rotina de atividades em casa. Outra ação relevante que conseguimos fazer, desde o dia 1º de abril, é a entrega em domicílio de produtos da nossa oficina ortopédica da unidade Ibirapuera, em São Paulo. Já entregamos mais de 150 produtos ortopédicos nas casas dos pacientes, entre próteses, órteses, adaptação de cadeira de rodas etc.”, explica Edson Brito.

Serviços essenciais oferecidos pelo Instituto Jô Clemente, como o Teste do Pezinho, o Ambulatório de Triagem Neonatal e os atendimentos no Centro de Apoio Técnico da 1ª Delegacia de Polícia da Pessoa com Deficiência, em São Paulo, permanecem sendo feitos presencialmente na maior parte dos casos, seguindo as recomendações das autoridades sanitárias, com o uso de EPIs por todas as pessoas envolvidas.

“Além dos serviços essenciais, temos os atendimentos à distância, de forma remota, por meio da internet (com telemedicina), do WhatsApp e do telefone. Disponibilizamos, também conteúdos educativos nas redes sociais, além de guias e cartilhas para as famílias. Fizemos, ainda, uma pesquisa com as pessoas atendidas e seus familiares para entender as reais dificuldades e adaptar os atendimentos às necessidades de cada um e reforçamos nosso apoio em assistência social para resguardar os direitos dessas pessoas aos benefícios concedidos pelo governo. Nosso papel é promover a autonomia e o protagonismo das pessoas com deficiência na sociedade e é por isso que precisamos contar com o apoio de todos. Somente em 2019, nós atendemos mais de 22 mil pessoas e nossa meta é ampliar cada vez mais o número de pessoas apoiadas”, finaliza Daniela.