A Covid-19 impõe incertezas, inseguranças, inquietações e torna mais desafiador o papel dos executivos para assegurar o foco dos funcionários no propósito da organização. O isolamento social fragiliza as lideranças, principalmente aquelas apoiadas no rígido controle e na organização em um espaço físico, mas também traz oportunidades para a autoconsciência e a disseminação da valorização do trabalho e sua finalidade além dos aspectos de remuneração. Para estabelecer ou manter relações de confiança, dando autonomia e responsabilidade aos colaboradores, especialmente nesta fase em que o home office é necessário, o coaching tem sido um instrumento de desenvolvimento recorrente, mitigando riscos e adquirindo até mesmo caráter de responsabilidade econômica e social.

A International Coaching Federation (ICF), organização global líder no avanço da profissão de coach, lançou o programa Coaches for Good, que oferece atendimentos pro bono durante a pandemia. “No Brasil, desde o início da pandemia, temos atendido gratuitamente instituições de setores essenciais, como os hospitais, dentre outros que não pararam durante a crise de saúde. Neste momento, as pessoas estão muito desestruturadas. Tem gente que se pergunta: ‘como tocar a organização se agora tudo está no ambiente virtual?’ Mas aí entra o propósito da empresa e do trabalho”, explica Marcus Baptista, presidente da International Coaching Federation – Capítulo Brasil. “Quando esse propósito é claro e compartilhado, o caminho a seguir também é. O escrito de Lewis Carroll se aplica bem aqui: ‘se você não sabe onde quer ir, qualquer caminho serve’. O propósito é este norteador maior, é algo que galvaniza e une o time, que cria a cultura desejada e define a quem a companhia está servindo e qual proposta de valor está gerando”, acrescenta, referindo-se ao escritor britânico, autor do livro Alice no País das Maravilhas.

Organização sem fins lucrativos, a ICF vem atuando ao longo dos últimos 25 anos estabelecendo e disseminando altos padrões éticos e de qualidade para a prática profissional de apoio no desenvolvimento humano, oferecendo estrutura de credenciamento para os coaches, acreditações para as instituições que formam coaches de programas de educação continuada para seus associados além de oferecer oportunidades para  networking, gerando visibilidade e credibilidade aos coaches e a profissão de coaching. Atualmente, congrega mais de 40 mil membros em todo o mundo e tem presença em 143 países.

No Brasil, o trabalho de coaching costuma entrar nas organizações por intermédio da área de Recursos Humanos, para contribuir com o acolhimento pela escuta, além de técnicas e perguntas que provocam análises internas em indivíduos e grupos, levam a percepções e ao equilíbrio emocional, à potencialização das competências essenciais e à mobilização para as tomadas de decisões com mais racionalidade. “O processo de coaching é uma parceria entre o coach e os clientes, para fomentar um processo mental criativo e instigante de inspiração a comportamentos, atitudes e habilidades que maximizam resultados pessoais e profissionais. Diferentemente da psicologia, que trabalha o passado, o coaching tem como foco o presente e o futuro, por meio de diálogos em uma atmosfera de confidencialidade e confiança”, adiciona Marcus Baptista. “Agora, com a Covid-19, trabalha-se especialmente o presente, o que tem para hoje, uma vez que está difícil fazer planejamentos além do curto prazo. Mas o processo tem amplitude após período da pandemia, pois trata-se da busca constante pela melhor postura e o sucesso em objetivos específicos. O coaching é para a vida toda.”

 

O papel da liderança

No ambiente corporativo, os impactos indiretos da Covid-19 causam sérios níveis de desconforto nos colaboradores. Alterações abruptas no cotidiano de trabalho e as incertezas sobre o futuro podem gerar desmotivação e impactar a produtividade e os resultados das empresas. Logo, ganha importância o trabalho de coaching apoiando o fortalecimento das lideranças e suas ações de comunicação, transmissão de informações e posicionamentos transparentes, despertando nos colaboradores o senso de realidade, engajamento, orgulho e pertencimento organizacional.

A pandemia despertou as empresas para cuidados com o estresse e a saúde mental dos colaboradores, embora o coaching seja realidade há anos em grandes corporações no País, tais como a Samsung, a Votorantim, a GlaxoSmithKline e a Usiminas, entre muitas outras, dos mais diversos segmentos. A metodologia de desenvolvimento estimula recursos internos para os quais as pessoas precisam de apoio externo, de parceria para tornar vigente, para agir e reagir com sabedoria. “Para muita gente, o home office deixa tudo misturado. Falta privacidade. Tem gente trabalhando na cozinha, na sala, achando que é um péssimo exemplo para o filho, pois nem se levanta da cadeira, mal vai almoçar. O momento pede que lidemos com as frustrações e limitações de forma madura, inclusive em relação ao trabalho. Qual é o correto posicionamento frente aos colaboradores? E com os clientes? Essas são questões que podem ser observadas por quaisquer profissionais”, afirma o presidente da ICF Brasil.

As metodologias de coaching advêm de estudos, teorias, práticas e acompanhamentos de atendimentos e resultados. As melhores instituições do setor investem constantemente em pesquisas, na busca de informações, tendências e inspirações para as lideranças e os liderados. Os trabalhos nesse campo da ciência surgiram em âmbito acadêmico, na Universidade de Harvard por exemplo, há cerca de 100 anos.

 

Coaches for Good

O Coaches for Good é uma iniciativa global da ICF. A oferta voluntária de sessões de coaching, por profissionais com larga formação e treinamento, visa ampliar e qualificar as pessoas e dar suporte à manutenção da rentabilidade financeira das organizações, das relações de produção, compra e venda, dos empregos e de toda a cadeia produtiva e de valor. Trata-se de um apoio sempre situacional e, neste momento, com contornos econômico e de responsabilidade social. “O objetivo do coaching pro bono é apoiar as pessoas a encontrarem o seu eixo e se responsabilizarem por isso, lembrando que os benefícios transcendem esse contexto. É sobre como tocar as pessoas. Por vezes, falta repertório aos líderes. Alguns deles vão se reinventar. Para nós, os coaches, é fundamental o sentido de apoio para que as pessoas se autoconheçam e se desenvolvam. Quando apoiamos um indivíduo ou um grupo profissional, ou mesmo um time, colaboramos com o bem da sociedade e das organizações. Temos consciência do nosso papel no mundo”, comenta Marcus Baptista.