Um estudo recentemente publicado pela Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, indicou que a presença de 1% a mais de partículas de poluição no ar pode provocar uma chance 8% maior de morte relacionada ao novo coronavírus. Essa é a proporção do impacto que políticas de proteção ao meio ambiente, como a promoção de matrizes energéticas renováveis e limpas – dentre elas, os biocombustíveis –, podem ter na preservação de vidas, e não apenas em situações de emergência sanitária.

“Alguns cientistas apontam que a queda da poluição que acontece durante a quarentena é tão acentuada que, se estivéssemos com os índices atuais antes da pandemia, milhares de vidas seriam salvas, pois o mal é responsável por provocar e agravar quadros de doenças respiratórias em todo o planeta”, comenta o engenheiro e administrador Jacyr Costa Filho, uma das principais referências do país no mercado de etanol.

Segundo o executivo, que preside o Conselho Superior do Agronegócio (Cosag), da FIESP, e integra o Comitê Executivo da francesa Tereos, empresa que atua no mercado  sucroenergético e tem sete usinas no país, o etanol tem contribuído nas últimas duas décadas com a melhora da qualidade do ar em metrópoles como São Paulo. “Desde 2003, quando surgiu o veículo flex fuel, já foram evitadas emissões de 603 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera brasileira – o equivalente ao plantio de 4 bilhões de árvores”, exemplifica.

Em entrevista à CDI Trends, Costa Filho também fala sobre as perspectivas para o mercado de biocombustíveis com a aprovação do RenovaBio, programa de descarbonização da matriz de transportes que coloca o Brasil na dianteira do combate às emissões de gases de efeito estufa, e sobre os planos de sustentabilidade da Tereos.

 

Confira a íntegra da entrevista:

O etanol é um combustível renovável e limpo. Como ele pode ajudar nas questões de saúde pública tanto no Brasil como no mundo?

O aumento do uso de biocombustíveis é a fórmula mais eficaz para diminuir emissões de gases de efeito estufa no curto prazo no Brasil. Em seu ciclo completo, o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar, no Brasil, proporciona uma redução de até 90% de emissões de CO2, se comparado com a gasolina. Pela sua origem vegetal, a fotossíntese absorve o gás carbônico da queima do produto. Desde 2003, quando surgiu o veículo flex fuel, já foram evitadas emissões de 603 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera brasileira – o equivalente ao plantio de 4 bilhões de árvores.

Graças ao etanol, a maior metrópole da América do Sul, São Paulo, tem registrado ar mais limpo. Em 2001, a cidade chegou a emitir 59 µg/m3 de material particulado. Hoje, são 29 µg/m3, na média anual, bem mais próximo ao indicado pela OMS, que é de 20 µg/m3. Já tivemos uma grande evolução, mas ainda temos muita oportunidade para melhorar.

A solução para prevenir doenças respiratórias é utilizar mais biocombustíveis, já que eles são uma das maneiras mais eficazes de se combater a poluição atmosférica. O exemplo brasileiro poderá ser copiado em países em que a poluição do ar é um grave problema, como a Índia e a China.


O uso do etanol pode contribuir no combate ao novo coronavírus? Como?

A pandemia do novo coronavírus trouxe ainda maior relevância para a preocupação com o meio ambiente. Por se tratar de uma doença que afeta o aparelho respiratório, é fato que a má qualidade do ar agrava os efeitos da Covid-19. Isto ficou comprovado em recente estudo da Escola de Saúde Pública de Harvard TH Chan, em Boston, que, entre outros achados, apontou que o aumento de apenas 1% na concentração de material particulado fino no ar resulta em um incremento de 8% das mortes pela Covid-19.

Neste cenário, cresce a importância do uso de biocombustíveis, como o etanol. Segundo pesquisa publicada pelo físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), em 2017, a gasolina aumenta em 30% a emissão de nanopartículas que entram nos pulmões, o que compromete o sistema respiratório.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 90% da população do planeta vive em locais com a qualidade do ar abaixo da recomendada. A instituição também estimou que a poluição é responsável por 7 milhões de mortes prematuras por ano em todo o mundo. No Brasil, especificamente na capital paulista, a poluição é responsável por 12% das internações hospitalares, segundo o Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP).

Alguns cientistas apontam que a queda da poluição que acontece durante a quarentena é tão acentuada que, se estivéssemos com os índices atuais antes da pandemia, milhares de vidas seriam salvas, pois o mal é responsável por provocar e agravar quadros de doenças respiratórias em todo o planeta.

 

O RenovaBio está sendo discutido há muito tempo e previsto para ser implementado esse ano. Como funciona o programa e como ele pode ajudar o meio ambiente?

O RenovaBio é o maior programa de descarbonização da matriz de transportes do mundo. Com ele, o Brasil oferece uma forma efetiva para diminuir a emissão de gases de efeito estufa e, ao mesmo tempo, o nível de poluição nas nossas metrópoles.

Traduzindo em números, para se alcançar a redução de emissões prevista com o RenovaBio até 2029, teríamos que plantar 5 bilhões de árvores, o equivalente à soma de todas as árvores existentes hoje na Dinamarca, Irlanda, Bélgica, Holanda e Reino Unido. Por tudo isso, o programa tem sido uma referência positiva para a imagem do Brasil no exterior e servido de exemplo para o mundo como solução inteligente para o mercado de carbono, pois reconhece adequadamente a eficiência energética e ambiental dos biocombustíveis, com a comercialização dos CBIOs (certificados de descarbonização) na B3. Cada CBIO representa uma tonelada de carbono evitada na atmosfera.

A experiência bem-sucedida do etanol no Brasil e as perspectivas com o RenovaBio já influenciam a China e a Índia, países com metrópoles bastante poluídas, que dependem dos combustíveis limpos para mudarem o cenário perverso de poluição em que vivem seus cidadãos.

 

A Tereos é uma empresa do agro e tem muitas ações atreladas ao meio ambiente. Qual a principal iniciativa do Grupo na área de sustentabilidade?

A Tereos é uma das líderes do setor sucroenergético e de amidos no País. Nas oito unidades industriais localizadas no Estado de São Paulo, realizamos diversas ações de preservação ao meio ambiente. Nosso compromisso com a sustentabilidade ficou ainda mais evidente recentemente ao termos feito o primeiro financiamento sustentável do setor sucroenergético brasileiro, com um empréstimo de US$ 105 milhões.

Com a iniciativa, a Tereos se compromete com quatro metas ambiciosas de desenvolvimento sustentável, seguindo quatro indicadores de desempenho: redução anual de emissões de gases de efeito estufa por tonelada de cana processada; redução anual no consumo de água por tonelada de cana processada; aumento anual da porcentagem de cana certificada; e melhoria na pontuação de avaliação formal de critérios ambientais, sociais e de governança corporativa (ESG, na sigla em inglês). Como parte do financiamento, a Tereos terá uma redução da taxa de juros para cada ano em que cumprir as metas de desempenho de sustentabilidade, verificadas por um auditor independente.